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CAPÍTULO 1

O Messias que Israel Esperava

Jesus: Ruptura ou Propósito do Pai?

Tudo começou muito cedo, ainda na Escola Dominical.

Foi ali que ouvi pela primeira vez, de maneira simples, sobre Jesus, sobre as profecias e sobre o Messias que Israel esperava. Na minha compreensão de menino, a história parecia bastante clara: Deus havia prometido um Messias ao povo de Israel; os profetas haviam anunciado sua chegada; Jesus veio cumprindo aquelas promessas — e muitos não o reconheceram.

E não havia nada de errado em começar assim. Era uma maneira simples de apresentar uma história muito maior do que eu ainda seria capaz de compreender.

Durante muitos anos, aquela sequência permaneceu comigo:

Israel esperava o Messias. Jesus era o Messias. Jesus chegou.

Então a pergunta parecia óbvia: por que não o reconheceram?

Só muito tempo depois percebi que havia outra pergunta escondida antes daquela.

Quando um judeu do século I esperava pelo Messias, o que exatamente ele estava esperando?

A história que eu conhecia desde a Escola Dominical começou, então, a ganhar uma dimensão que eu nunca havia imaginado.

Não porque Jesus tivesse deixado de ser o Messias para mim.

Mas porque comecei a descobrir que “o Messias que Israel esperava” talvez nunca tivesse sido uma única expectativa.

Talvez eu tenha imaginado durante anos uma cena que nunca existiu daquela maneira: um povo inteiro esperando a mesma pessoa, com a mesma imagem na cabeça, diante de uma lista clara de profecias que todos interpretavam do mesmo modo. Se fosse assim, a pergunta seria quase inevitável: se Jesus cumpriu as promessas, por que tantos não o reconheceram?

Mas o mundo judaico do século I era muito mais diverso. Não havia uma única expectativa messiânica compartilhada por todos. Havia diferentes esperanças e interpretações — algumas próximas entre si, outras bastante distintas.

Antes de perguntar por que Jesus foi rejeitado, portanto, eu precisava fazer uma pergunta anterior: o que a palavra “Messias” significava para quem vivia naquele mundo?

A palavra hebraica mashiach significa “ungido”. Nas Escrituras de Israel — o que os cristãos hoje chamam de Antigo Testamento — a unção podia estar relacionada a reis e sacerdotes. O termo, por si só, não carregava automaticamente todo o conteúdo que séculos de cristianismo colocariam sobre a palavra “Messias”.

A esperança de um governante ligado à casa de Davi, porém, tornou-se especialmente importante. A promessa feita à dinastia davídica e textos proféticos posteriores alimentaram a expectativa de que Deus restauraria Israel por meio de um governante escolhido.

No século I, essa esperança existia debaixo de uma realidade política impossível de ignorar: Roma.

No tempo de Jesus, a região vivia sob domínio romano, embora nem todas as áreas fossem administradas da mesma forma. A Judeia estava sob administração romana direta, enquanto a Galileia era governada por Herodes Antipas, um governante cliente de Roma. Nesse ambiente, esperar que Deus restaurasse Israel podia adquirir também uma dimensão política.

Quando encontrei os Salmos de Salomão, essa dimensão política ganhou uma forma mais concreta para mim. O Salmo 17, escrito antes do ministério de Jesus, apresenta a esperança de um descendente de Davi que purificaria Jerusalém e derrotaria governantes injustos. Essa não era necessariamente a expectativa de todos os judeus, mas mostra que a imagem de um Messias davídico forte e restaurador fazia parte do mundo religioso daquele período.

Mas essa imagem não fechou a questão. Ao chegar aos Manuscritos do Mar Morto, encontrei um cenário ainda mais diverso. Alguns textos associados a Qumran apontam para figuras com funções diferentes, incluindo dimensões sacerdotais, reais e proféticas. A expectativa messiânica, portanto, nem sempre precisava estar concentrada em uma única figura.

A pergunta “o que os judeus esperavam do Messias?” começou a parecer ampla demais. Quais judeus? Em qual região, grupo e momento?

A diversidade não parava ali. A expressão “Filho do Homem”, tão importante nos Evangelhos, acrescenta outra camada. Daniel 7 apresenta “alguém como um filho de homem” recebendo domínio, glória e reino. Esse texto gerou interpretações variadas no judaísmo antigo e também na pesquisa moderna. Por isso, quando os Evangelhos colocam essa expressão nos lábios de Jesus, não estamos diante de uma etiqueta simples, mas de uma linguagem carregada de possibilidades.

Até que surge a questão que, para um cristão, talvez seja a mais difícil de deixar de projetar para trás: o sofrimento do Messias.

Os escritos do Novo Testamento mostram os primeiros cristãos lendo textos das Escrituras de Israel — entre eles Isaías 53 — à luz da morte e da ressurreição de Jesus. Para a fé cristã, essa leitura tornou-se fundamental. Historicamente, porém, precisamos ser cuidadosos antes de imaginar que os judeus do século I compartilhavam uma expectativa clara e uniforme de um Messias que seria rejeitado, morto e depois ressuscitaria.

Há debate acadêmico sobre até que ponto tradições judaicas anteriores ao cristianismo poderiam relacionar sofrimento a figuras messiânicas ou escatológicas. O que não podemos fazer é pegar a compreensão cristã formada depois da cruz e simplesmente colocá-la inteira na mente das pessoas que encontraram Jesus antes dela.

Isso muda profundamente a pergunta.

Talvez algumas pessoas não tenham olhado para Jesus e pensado: “Aqui está o Messias que esperávamos, mas decidimos rejeitá-lo.” Talvez tenham olhado para ele e perguntado: “Que tipo de Messias é este?”

Jesus não aparece num vazio religioso. Ele surge dentro de Israel, fala a partir das Escrituras de Israel e anuncia o Reino de Deus. Ao mesmo tempo, confirma algumas expectativas de seu mundo, transforma outras e frustra outras completamente.

Se alguém esperava um libertador político imediato, o caminho de Jesus podia parecer estranho. Se esperava a restauração de Israel, a maneira como Jesus falava do Reino exigia interpretação. Se esperava vitória, a cruz pareceria o contrário de uma coroação.

É por isso que compreender Jesus historicamente exige que eu tente, pelo menos por alguns momentos, esquecer que conheço o final da história.

Eu sei da cruz. Sei da ressurreição. Conheço Paulo. Conheço dois mil anos de cristianismo. Os homens e mulheres que encontraram Jesus nas estradas da Galileia não possuíam nenhuma dessas vantagens.

Eles precisavam decidir quem ele era enquanto a história ainda estava acontecendo.

Isso me obriga a abandonar uma explicação confortável: a ideia de que Israel esperava exatamente o Jesus apresentado posteriormente pelo cristianismo e, mesmo assim, decidiu rejeitá-lo.

A realidade parece muito mais humana — e muito mais complexa.

Havia domínio romano, esperança de restauração, diferentes leituras das Escrituras, o Templo, sacerdotes, fariseus, saduceus, escribas, movimentos populares e pessoas comuns tentando compreender o que Deus estava fazendo.

Então talvez a primeira pergunta deste livro não seja “Por que Israel não reconheceu Jesus?”.

Talvez seja:

Se todos esperavam o Messias, esperavam a mesma coisa?

Essa pergunta não diminui minha fé em Jesus. Para mim, faz o contrário. Ela me obriga a encontrá-lo novamente dentro do mundo em que realmente viveu.

E, quando fazemos isso, uma segunda pergunta começa a aparecer.

Se Jesus nasceu dentro desse mundo, viveu como judeu, falou a judeus e utilizou as Escrituras de Israel, então, antes de entender seus conflitos, precisamos lembrar de algo que dois mil anos de história cristã às vezes nos fazem esquecer:

Jesus era judeu.

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