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LEIA O PRIMEIRO CAPÍTULO

Capítulo 1 — Uma Fé que Não Teme Perguntas

Uma Fé sem Medo

“Eu creio! Ajuda-me na minha falta de fé!” — Marcos 9:24

Eu podia ouvir a música e as pessoas orando ao meu redor. Sabia que estava deitado no chão, permanecia consciente e percebia o que acontecia à minha volta. Ainda assim, não conseguia abrir os olhos. Pouco antes, eu estava em pé, orando com outras pessoas. Havia vários grupos reunidos naquele lugar, e uma música tocava enquanto orávamos. Em determinado momento, senti minhas forças desaparecerem. Algumas pessoas me ampararam e, com cuidado, colocaram-me no chão. Eu ouvia tudo, mas não conseguia reagir como normalmente reagiria. Mesmo assim, não senti medo. Havia uma paz enorme e a sensação de que, naquele instante, eu estava bem exatamente onde estava. A música e as orações continuavam, e eu me sentia bem ali. Aquilo nunca mais aconteceu. Confesso que gostaria que acontecesse novamente, não para demonstrar alguma coisa a alguém, mas porque sinto falta do que vivi naquele momento. Hoje, às vezes, tenho a impressão de estar distante daquele lugar espiritual.

Foi justamente essa saudade que me levou a perguntar o que realmente havia acontecido. Alguns cristãos chamam experiências semelhantes de “repousar no Espírito”. Outros as compreendem como uma reação emocional, psicológica ou fisiológica. Não posso usar o que vivi como regra para a experiência de outras pessoas. Sobre mim, porém, posso afirmar: perdi as forças, fui amparado, permaneci

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consciente, ouvia o que estava ao redor, não conseguia abrir os olhos e senti uma paz profunda. A partir desses fatos, começam as interpretações. Foi uma ação direta do Espírito Santo ou uma resposta do corpo à intensidade daquele momento? Poderia uma explicação natural coexistir com um significado espiritual? Não tenho como provar uma possibilidade e excluir todas as outras.

Não ter uma resposta definitiva não diminuiu o que vivi. Ensinou-me apenas que existe diferença entre respeitar uma experiência e transformar nossa interpretação em certeza. Talvez este segundo livro tenha começado ali, no espaço entre aquilo que vivi e aquilo que ainda não consigo explicar. Minha esperança é que, por meio das pesquisas, dos estudos e dos livros que ainda desejo escrever, eu consiga me aproximar mais de Deus e reencontrar algo daquela paz. No primeiro livro, minhas perguntas me conduziram até Deus. Neste, não partirei de Deus para procurar respostas; partirei com Deus em busca delas. Essa diferença parece pequena, mas muda toda a caminhada. Eu creio em Deus e é a partir dessa convicção que desejo compreender melhor o mundo que Ele criou, as Escrituras que aprendi a amar e as perguntas que continuam surgindo dentro de mim.

Escrevo a partir da vida comum: do trabalho, do cuidado com a família, da leitura da Bíblia e das perguntas que me acompanham todos os dias. Elas surgem enquanto trabalho ao ar livre, quando dirijo de uma casa para outra, durante uma conversa e, muitas vezes, diante de uma passagem bíblica que não me permite seguir adiante com uma resposta fácil. Com o tempo, percebi algo curioso. Posso começar pensando sobre o início do universo, a origem da vida, o tempo, a consciência ou a liberdade humana. Mais cedo ou

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mais tarde, os assuntos parecem chegar ao mesmo ponto. Eles me levam novamente a Deus. Durante muitos anos, porém, carreguei a impressão de que certas perguntas não deveriam ser feitas por um cristão. Ninguém precisava me proibir diretamente. Bastava a sensação de que a dúvida revelava uma fé fraca e de que admitir “não sei” poderia soar como falta de confiança. Assim, algumas questões eram empurradas para um canto do pensamento. A fé permanecia, mas as perguntas também.

Hoje penso de outra forma. Se Deus é a verdade, uma pergunta sincera não precisa ser tratada como inimiga. Ela pode expor uma interpretação equivocada, uma resposta apressada ou uma imagem de Deus que nunca correspondeu plenamente ao que as Escrituras revelam. Isso pode ser desconfortável, mas não é necessariamente perigoso. Às vezes, o que está sendo abalado não é a fé. É apenas uma certeza construída por nós. Foi por isso que a declaração daquele pai, no Evangelho de Marcos, me chamou tanto a atenção. Ele levou o filho até Jesus e, diante daquilo que parecia impossível, respondeu: “Eu creio! Ajuda-me na minha falta de fé!” Em uma única frase, apresentou sua confiança e sua fragilidade. Não tentou parecer mais forte do que era. Não ofereceu uma resposta religiosa bem organizada. Entregou a Jesus o coração como ele realmente estava.

Cristo não o afastou por causa dessa confissão. O homem não precisou resolver primeiro todas as contradições dentro de si para então ser recebido. Levou a Jesus a fé que possuía e também a parte que ainda precisava de ajuda. Talvez essa seja uma das formas mais honestas de fé: não fingir que sabemos o que não sabemos, nem esconder de Deus aquilo

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que Ele já conhece. Podemos crer e ainda perguntar. Podemos amar a Deus e não compreender por que determinada dor foi permitida. Podemos confiar nas Escrituras e reconhecer que existem textos difíceis. Podemos olhar para a grandeza do universo e perguntar como tudo aquilo se relaciona com o Criador.

Isso não significa que toda dúvida seja boa. Há perguntas que procuram a verdade e há perguntas utilizadas apenas para evitar qualquer resposta. Uma pessoa pode questionar com humildade, disposta a rever suas conclusões, ou pode usar a dúvida como proteção contra tudo aquilo que não deseja admitir. A diferença nem sempre está nas palavras usadas, mas no coração de quem pergunta. Eu também preciso vigiar o meu. Não quero formular uma pergunta já decidido a aceitar apenas a resposta que me agrada. Se desejo sinceramente conhecer a verdade, preciso permitir que ela corrija minhas ideias, inclusive aquelas que repeti durante anos. A fé não me dá o direito de chamar minha interpretação de infalível. Ela me ensina a permanecer diante de Deus com confiança e humildade.

A própria Bíblia não esconde a inquietação humana. Jó procurou entender o sofrimento que havia destruído sua antiga vida. Habacuque perguntou por que Deus parecia tolerar a injustiça. Davi colocou em seus salmos a angústia de quem esperava e não via uma resposta. Tomé declarou que precisava de evidências para acreditar que Jesus havia ressuscitado. Esses relatos poderiam ter sido suavizados. As hesitações poderiam ter sido retiradas para que os personagens parecessem espiritualmente impecáveis. Mas elas permaneceram. A Bíblia nos mostra pessoas reais diante de Deus: algumas chorando, outras esperando, outras

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tentando conciliar aquilo em que acreditavam com aquilo que estavam vivendo.

Jó não recebeu uma explicação detalhada para cada perda. Foi levado a reconhecer a grandeza de Deus e os limites de sua própria visão. Habacuque começou perguntando e terminou declarando que se alegraria no Senhor mesmo que os campos não produzissem. Tomé encontrou Cristo e sua dúvida deu lugar à confissão: “Senhor meu e Deus meu!” (João 20:28). As perguntas fizeram parte da história deles, mas não tiveram a palavra final. Foi algo parecido que comecei a perceber ao escrever o primeiro livro. Quando voltei a textos como os de Caim, Canaã, o julgamento, a morte e a eternidade, eu não estava procurando uma razão para acusar Deus. Queria coerência. Queria entender como passagens tão difíceis se relacionavam com o Pai revelado por Jesus Cristo.

Algumas explicações trouxeram clareza. Outras mostraram que o assunto era mais complexo do que eu imaginava. E algumas perguntas continuaram abertas. Ainda assim, minha fé não diminuiu. Ao contrário, deixou de depender de respostas rápidas e aprendeu a reconhecer seus próprios limites. O primeiro livro nasceu dessa descoberta. O segundo começa depois dela. Agora quero olhar com mais atenção para questões que atravessam a Bíblia, a história, a filosofia e a ciência. Não para misturar tudo como se essas áreas utilizassem o mesmo método ou tivessem exatamente o mesmo propósito, mas para compreender onde elas conversam, onde precisam ser distinguidas e onde nossas conclusões ultrapassam aquilo que realmente sabemos.

Muitos conflitos nascem justamente da falta dessa cautela. Uma interpretação teológica não é automaticamente a única

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leitura possível de um texto. Uma hipótese científica não se transforma em fato apenas porque parece interessante. Uma descoberta verdadeira também não deve ser negada somente porque desafia uma explicação religiosa à qual nos acostumamos. E a Bíblia não precisa ser forçada a responder perguntas científicas que não eram o objetivo de seus autores. Por isso, ao longo deste livro, tentarei distinguir com honestidade aquilo que as Escrituras afirmam, aquilo que pertence ao campo da interpretação, aquilo que as evidências permitiram observar e aquilo que continua sendo hipótese. Quando houver mais de uma leitura séria entre cristãos, isso será reconhecido. Quando a ciência não possuir uma resposta definitiva, não fingiremos que possui. Quando eu não souber, direi que não sei.

Dizer “não sei” parece simples, mas exige coragem. Existe uma tentação de preencher todo espaço vazio com uma certeza. No ambiente religioso, podemos fazer isso utilizando um versículo fora de seu contexto. No ambiente científico, podemos apresentar uma possibilidade como se já estivesse demonstrada. Em ambos os casos, a pressa em responder pode nos afastar da verdade que afirmamos defender. Há outro cuidado que considero indispensável: não usar Deus apenas para preencher aquilo que a ciência ainda não explicou. O Deus em quem creio não habita somente as lacunas do conhecimento humano. Ele não se torna menor cada vez que descobrimos um novo mecanismo da natureza. Se Ele é o Criador, então uma descoberta verdadeira sobre a criação não o substitui; apenas nos permite observar um pouco mais daquilo que existe.

A ciência investiga fenômenos, mede, compara, testa hipóteses e corrige seus modelos quando surgem novas

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evidências. A filosofia nos ajuda a organizar perguntas sobre existência, conhecimento, consciência, moralidade e sentido. As Escrituras testemunham quem Deus é, o que Ele fez na história e como se revelou de maneira plena em Jesus Cristo. Esses campos podem tocar questões semelhantes, mas não devem ser confundidos nem transformados em armas uns contra os outros. Minha intenção não é fazer a ciência provar Deus, como se o Criador dependesse de uma fórmula, nem usar a fé para negar aquilo que pode ser honestamente observado. Deus permanecerá no centro desta investigação, a Bíblia será nosso fundamento e Cristo será a referência pela qual desejo conhecer o coração do Pai. Ao mesmo tempo, minhas interpretações estarão abertas à correção, porque elas não são Deus e não possuem a autoridade das Escrituras.

Para mim, essa distinção é muito importante. Minha crença em Deus não é uma conclusão provisória que será abandonada caso uma teoria pareça difícil. No entanto, a maneira como interpreto um texto, compreendo um acontecimento histórico ou relaciono uma descoberta científica com a fé pode amadurecer. Rever uma interpretação não significa abandonar Deus. Às vezes, significa apenas admitir que Ele é maior do que a explicação que construímos. Enquanto penso nessas questões, lembro- me das pessoas que talvez leiam estas páginas sem compartilhar minha fé. Algumas podem ter se afastado por causa da dor. Outras conheceram uma religião baseada no medo, conviveram com a hipocrisia ou ouviram uma imagem de Deus marcada apenas pela condenação. Há ainda aquelas que consideram que a ciência tornou qualquer crença desnecessária.

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Não desejo tratar quem pensa assim como inimigo. Antes de responder à dor com um argumento, preciso respeitar a história de cada pessoa. Uma ferida não desaparece porque recitamos rapidamente um versículo. Uma dúvida intelectual séria também não merece uma caricatura. Existem ateus e agnósticos que estudaram profundamente suas questões, assim como existem cristãos que apenas repetem respostas que nunca examinaram. Honestidade exige reconhecer isso. Ao mesmo tempo, existe uma pergunta que considero justa: qual Deus está sendo rejeitado? É o Deus revelado em Jesus Cristo ou uma imagem distorcida construída por experiências, abusos, discursos religiosos e explicações incompletas? A pergunta não elimina todas as objeções, mas pode abrir espaço para uma investigação mais cuidadosa.

Não pedirei a esse leitor que deixe a razão do lado de fora. Também não prometerei um argumento capaz de obrigá-lo a crer. Desejo apenas convidá-lo a olhar novamente. Será que tudo o que existe pode ser explicado somente por aquilo que conseguimos medir? As leis que descrevem o funcionamento do universo explicam também por que existe um universo organizado por leis? A consciência humana é apenas atividade material ou existe nela uma dimensão que ainda não compreendemos? Nossa busca por sentido, justiça, amor e eternidade é apenas um acidente sem significado? Nenhuma dessas perguntas, sozinha, prova Deus. Mas, juntas, talvez revelem que algumas portas ainda não estão completamente fechadas.

Nos capítulos seguintes, entraremos em temas que me acompanham há muito tempo: quem é Deus, como compreender a Trindade, o que é o tempo, o que podemos afirmar sobre a criação e a origem da vida, de onde vem a

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consciência, como pensar o mal, Adão, o livre-arbítrio, Judas, o sofrimento, a cruz, a morte e a eternidade. Não desejo transformar cada assunto em uma disputa. Quero examiná- los com reverência, responsabilidade e disposição para aprender. Se uma resposta fizer sentido, nós a seguiremos até onde as evidências e as Escrituras permitirem. Se encontrarmos interpretações diferentes, tentaremos compreendê-las sem transformar irmãos em adversários. Se chegarmos diante de um mistério, não fabricaremos uma certeza apenas para que o capítulo termine de maneira confortável.

Paulo escreveu que agora vemos como em espelho, de maneira obscura, e que conhecemos apenas em parte (1 Coríntios 13:12). Essa afirmação não transforma a verdade em algo inalcançável. Ela apenas nos lembra de que nossa visão ainda é limitada. Existe verdade, mas nenhum de nós enxerga tudo. Reconhecer esse limite protege a fé de dois perigos. O primeiro é concluir que, se não compreendemos tudo, então Deus não existe. O segundo é imaginar que, por crermos em Deus, já possuímos resposta para tudo. Entre essas duas arrogâncias existe um caminho mais humilde: convicção suficiente para permanecer e honestidade suficiente para continuar aprendendo.

É nesse lugar que desejo escrever. Não quero vencer uma discussão enquanto perco a oportunidade de compreender uma pessoa. Não quero proteger uma resposta apenas por ser antiga, nem rejeitá-la pelo mesmo motivo. Quero aprender a perguntar com respeito, pesquisar com responsabilidade e voltar sempre às Escrituras, sem usá-las como decoração para ideias que já estavam prontas. Talvez, ao final, algum leitor continue discordando de mim. Isso não

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tornará a caminhada inútil. Se estas páginas ajudarem um cristão a admitir suas perguntas sem sentir que abandonou a fé, já terão servido a um propósito. Se ajudarem alguém ferido pela religião a considerar que Deus pode ser diferente da imagem que recebeu, haverá motivo para gratidão. E, se levarem uma pessoa a abrir novamente a Bíblia e olhar com sinceridade para Jesus, terão realizado mais do que qualquer debate poderia alcançar.

Antes de avançar, porém, preciso fazer a mim mesmo as mesmas perguntas que proponho ao leitor. Estou disposto a reconhecer quando não sei? Aceitarei uma resposta que corrija aquilo que sempre pensei? Minhas dúvidas desejam realmente compreender ou apenas defender minhas preferências? E o Deus que afirmo conhecer vem das Escrituras ou de imagens que recolhi ao longo da vida? Não são perguntas que deixo apenas para o leitor. Antes de atravessarem estas páginas, elas precisam alcançar-me. Minha oração, por isso, não precisa ser longa: Senhor, eu creio. Ajuda-me também naquilo que ainda não compreendo. Não permitas que minha fé se transforme em medo da verdade, nem que minha razão se transforme em orgulho. Corrige minhas interpretações, guarda meu coração e

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