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Capítulo 1 — Quando o chão desapareceu

Uma Jornada de Fé

“Deus é o nosso refúgio e fortaleza, socorro bem presente nas tribulações.” — Salmo 46:1

58% — O número que eu nunca esqueci Existem números que desaparecem da memória poucos minutos depois de ouvirmos. Um preço, um horário, uma senha, alguma informação que naquele momento parecia importante e depois simplesmente se perde. Outros permanecem. Para mim, 58 é um desses números. Durante muitos anos, ele voltou à minha memória sem pedir licença. Hoje já não carrega apenas o medo daquele dia. Também me lembra o início de uma caminhada que mudaria minha maneira de enxergar Deus, minha família e até a mim mesmo. Naquele momento, porém, eu não pensava em nada disso. Eu só sabia que alguma coisa estava muito errada com meu filho. Mas essa história não começou no hospital. Começou em junho de 2011, quando Philip nasceu. Quando segurei meu filho nos braços pela primeira vez, comecei a imaginar o futuro sem sequer perceber que estava fazendo isso. Acho que muitos pais fazem o mesmo. Olhamos para uma criança que acabou de chegar ao mundo e, em poucos instantes, nossa cabeça já está anos à frente. Imaginei seus primeiros passos, o primeiro dia de escola, as brincadeiras, as viagens, as conversas que teríamos quando ele

crescesse. Eram sonhos simples, talvez os mesmos que milhões de pais já tiveram antes de mim. Olhei para Ana. Não era preciso falar muito. O sorriso dela dizia bastante. Maria, nossa filha mais velha, recebeu o irmão com aquela mistura de alegria e curiosidade que acompanha a chegada de uma criança à família. Aos poucos nossa casa ganhou uma nova rotina, novos cuidados e uma nova forma de amor. Naquele tempo, eu não carregava grandes questões teológicas. Minha ideia sobre a vida era muito mais simples: trabalhar, cuidar da minha família, amar minha esposa, acompanhar meus filhos e resolver os problemas conforme aparecessem. Eu queria vê-los crescer. Parecia suficiente. Talvez exista em nós uma espécie de distância entre saber que o sofrimento existe e imaginar que ele pode atravessar a porta da nossa própria casa. Sabemos que crianças adoecem. Sabemos que existem hospitais, acidentes, diagnósticos e perdas. Ouvimos histórias de outras famílias, sentimos tristeza por elas, talvez até façamos uma oração. Mas ouvir a história de alguém é muito diferente de descobrir que agora a história é a nossa. Os primeiros meses de Philip transcorreram com aquilo que normalmente ocupa a atenção dos pais de uma criança pequena: alimentação, sono, crescimento, pequenas descobertas. Até que, quando ele tinha cerca de um ano e meio, um dia aparentemente comum começou a mudar. Sua respiração ficou rápida. No início, não tínhamos motivo para imaginar algo tão grave. Crianças ficam resfriadas, têm febre, adoecem e melhoram. Mas aquela respiração começou a chamar nossa atenção. O pequeno peito subia e descia depressa demais, e cada movimento parecia exigir um esforço maior. Não sabíamos explicar exatamente o que estava acontecendo. Só sabíamos que aquilo não estava normal.

Corremos para o hospital. Quando chegamos, tudo aconteceu depressa. Profissionais começaram a atendê-lo, equipamentos foram colocados e eu tentava acompanhar o que estava sendo feito. Mas, por mais que olhasse para tudo ao redor, meus olhos sempre voltavam para Philip. Eu só queria vê-lo respirar normalmente. Naquele instante não havia teologia. Não havia filosofia. Não havia nenhuma pergunta complicada sobre Deus. Havia um pai olhando para o filho e pensando apenas: Respira. Olhei para Ana. Não precisávamos conversar. O medo já estava ali. Então ouvi o número. Cinquenta e oito. A saturação de oxigênio de Philip havia chegado a 58%. Eu não compreendia naquele momento todas as implicações daquele resultado. Não precisava. A maneira como a equipe reagiu foi suficiente para que eu entendesse que a situação era séria. E ali eu senti algo que nunca havia experimentado daquela maneira. Eu não conseguia resolver. Sempre fui um homem acostumado a trabalhar e procurar soluções. Quando alguma coisa quebra, tento consertar. Quando surge um problema, penso no que pode ser feito. Grande parte da minha vida foi construída assim: aparece uma dificuldade, eu trabalho até encontrar uma saída. Talvez isso tenha me dado, durante muitos anos, uma sensação de controle maior do que realmente possuía. Naquele hospital, porém, não havia ferramenta que eu pudesse pegar. Eu estava ali. Era o pai dele. Amava aquele menino mais do que conseguiria explicar. Mas não podia respirar por ele.

Eu faria qualquer coisa que estivesse ao meu alcance para protegê- lo, mas naquele momento descobri uma das partes mais difíceis de ser pai: amar profundamente alguém não significa ter poder para impedir tudo o que pode lhe acontecer. Acho que existe uma promessa silenciosa que fazemos aos nossos filhos. Nunca precisamos pronunciá-la, mas ela está dentro de nós desde o momento em que chegam: Eu vou cuidar de você. E cuidamos. Fazemos tudo o que podemos. Mas um dia descobrimos que nossos braços possuem limites. Foi naquele hospital que comecei a aprender isso. Aquela não seria nossa única passagem por um hospital. A partir daquele episódio, a asma entrou definitivamente na rotina da família. Vieram consultas, medicamentos, nebulizações, períodos tranquilos e novas crises. Aos poucos fomos aprendendo coisas que antes não faziam parte da nossa vida e começamos a observar sinais que, antes daquele primeiro susto, provavelmente teriam passado despercebidos. Depois que você vê um filho lutando para respirar, a respiração dele deixa de ser uma coisa completamente automática aos seus olhos. Algo tão básico quanto respirar havia se tornado motivo de atenção. E de oração. Com o tempo surgiu outro problema. O muco se acumulava atrás do tímpano e Philip começou a sofrer infecções frequentes no ouvido. Uma veio depois da outra. Depois de aproximadamente nove infecções, o médico explicou que seria necessário colocar tubos de ventilação. Hoje consigo resumir tudo isso rapidamente: houve infecções, consultas e depois o procedimento. Na época, porém, nós apenas atravessávamos cada etapa conforme ela chegava. Havia decisões a tomar, noites difíceis, preocupações e a responsabilidade de tentar escolher o melhor para uma criança que dependia de nós.

Queríamos poupá-lo de qualquer desconforto, mas também precisávamos aceitar tratamentos que poderiam ajudá-lo. Era simplesmente a vida acontecendo. Somente muitos anos depois eu perceberia o quanto aqueles dias estavam formando perguntas dentro de mim. Na época, eu não estava interessado em explicar o sofrimento. Eu estava ocupado tentando atravessá-lo. E havia alguém atravessando tudo aquilo conosco que, por muito tempo, não ocupou o mesmo espaço nas minhas lembranças daquela fase. Maria. Quando penso naqueles anos, é natural que minha memória vá primeiro para Philip. Era ele quem estava doente. Era ele quem tinha dificuldade para respirar. Era ele quem precisava das consultas e dos procedimentos. Mas a história também estava sendo vista pelos olhos da irmã. Maria percebia nossa preocupação. Via os pais cansados, acompanhava nossas saídas para o hospital e esperava notícias. Talvez eu não tenha entendido naquela época tudo o que ela também estava vivendo. Hoje consigo olhar para trás com outros olhos. Enquanto eu concentrava quase toda a minha atenção no filho que estava fisicamente doente, minha filha também atravessava aquela fase conosco. Isso me ensinou mais tarde que o sofrimento raramente fica restrito a uma única pessoa. A doença pode estar em um corpo, mas suas consequências atravessam relacionamentos inteiros. Philip sofria aquilo no próprio corpo. Ana vivia tudo como mãe. Eu vivia como pai. Maria vivia como irmã. E cada um carregava aquilo de uma maneira diferente.

Talvez por ter conhecido o sofrimento desse lugar — não como estudioso, mas como pai — eu tenha me tornado desconfortável com explicações fáceis demais para a dor humana. Visto de longe, o sofrimento cabe em teorias. De perto, ele tem nome. Naqueles dias, minhas orações também não tinham nada de sofisticado. Eu não perguntava por que Deus permite o sofrimento. Não tentava compreender como Sua soberania se relaciona com a fragilidade humana. Não sabia sequer formular algumas das perguntas que anos depois ocupariam tanto espaço na minha caminhada. Eu simplesmente orava: “Senhor... cura o meu filho.” Só isso. Durante muito tempo achei que uma oração forte precisava ser uma oração bem construída. Hoje não penso mais assim. Há momentos em que tudo o que conseguimos levar até Deus são poucas palavras acompanhadas de medo, esperança e uma necessidade enorme de que Ele nos ouça. Naquela época, era tudo o que eu tinha. E talvez fosse suficiente. O Salmo 46 diz que Deus é “socorro bem presente nas tribulações”. Quando estamos sofrendo, naturalmente nossos olhos vão para a palavra socorro. Queremos que Deus intervenha. Queremos a cura, a solução, a porta aberta, o fim daquilo que está causando medo. Eu também queria. Mas, com o passar dos anos, comecei a prestar atenção em outra parte do versículo: “bem presente nas tribulações.” Ele não diz que quem confia em Deus jamais conhecerá a tribulação. Fala de um Deus que está presente nela.

Demorei para perceber a importância dessa diferença. Naquele hospital, minha fé não era uma resposta teológica. Era para onde eu corria quando percebia que minhas próprias forças tinham chegado ao limite. Isso não eliminou meu medo. Eu tinha medo. Continuava sendo pai. Continuava preocupado. Continuava desejando que meu filho melhorasse o mais rápido possível. A fé não tornou o hospital menos real, não apagou a asma e não fez desaparecer as infecções. Tampouco me transformou em alguém incapaz de sentir medo. Apenas me deu um lugar para onde levar esse medo. Talvez uma das primeiras coisas que aquela experiência começou a me ensinar tenha sido justamente isso: confiar em Deus e sentir medo não são necessariamente experiências incompatíveis. Eu podia acreditar e ainda não compreender. Podia orar e continuar preocupado. Podia confiar em Deus enquanto desejava desesperadamente que a situação fosse diferente. Naquele momento eu ainda não sabia o quanto isso mudaria minha maneira de viver a fé. As perguntas vieram depois. Durante a crise, eu não tinha espaço para elas. Quando estamos no meio de uma tempestade, geralmente não paramos para estudar o vento. Procuramos alguma coisa em que possamos nos segurar. Quando as crises começaram a diminuir e a vida recuperou algum ritmo, tive espaço para olhar para trás. Voltei ao trabalho. Nossa rotina continuou.

Os dias foram passando. E pouco a pouco outra oração começou a nascer. Eu nunca havia deixado de acreditar em Deus. Isso é importante para compreender tudo o que viria depois. Minhas perguntas não nasceram porque decidi que Deus não existia. Também não nasceram de uma vontade de confrontá-Lo ou demonstrar que as Escrituras estavam erradas. Elas nasceram porque eu acreditava. Eu acreditava em Deus e acreditava em Seu amor. Por isso queria compreendê-Lo melhor. A pergunta dentro de mim não era: “Será que Deus existe?” Era muito mais próxima de outra: “Deus, eu sei que Tu estás aqui. Mas eu ainda não consigo entender.” Essa diferença acabou se tornando a porta de entrada para uma caminhada que eu jamais imaginei fazer. Comecei a perceber que eu havia passado muito tempo pensando que fé significava não perguntar. Em algum lugar dentro de mim, eu tinha aprendido que um cristão verdadeiramente confiante deveria simplesmente aceitar, permanecer em silêncio e seguir adiante. Mas eu não conseguia fazer isso. Não porque tivesse perdido a confiança em Deus. Eu queria conhecê-Lo. E quanto mais importante alguém se torna para nós, mais desejamos compreendê-lo. Aquela percepção demorou a ganhar forma. Não houve um dia específico em que acordei e disse: “Agora começarei uma investigação sobre Deus.” Foi mais simples. Uma pergunta levou a outra. Uma passagem bíblica começou a me incomodar de uma maneira que antes não incomodava.

Voltei a textos que acreditava conhecer. Comecei a ler mais devagar. Às vezes fechava a Bíblia sem uma resposta. E, pela primeira vez, comecei a aceitar que isso não significava necessariamente que havia alguma coisa errada com minha fé. Eu ainda estava aprendendo. Hoje, quando volto àquele número — 58 — não consigo separá-lo de tudo isso. Ainda vejo o medo daquele pai no hospital. Vejo Ana. Vejo Maria. Vejo Philip tão pequeno. E vejo também um homem descobrindo que não controlava a vida como imaginava. Mas há uma afirmação que faço hoje com muito mais cuidado do que faria alguns anos atrás. Eu não gosto de dizer que Deus precisou adoecer meu filho para me ensinar alguma coisa. Não sei isso. E não quero atribuir a Deus uma explicação que Ele nunca me deu. Talvez, em algum momento da minha vida, eu tivesse facilidade para olhar para trás e organizar tudo dizendo: “Deus fez isso para produzir aquilo.” Hoje sou mais cauteloso. Existem coisas que eu simplesmente não sei. Não sei por que aquela crise aconteceu daquela maneira. Não sei por que algumas famílias recebem uma resposta rápida enquanto outras atravessam dores que duram anos. Não sei explicar cada sofrimento. Mas posso falar daquilo que vivi. Naquele sofrimento, Deus não estava ausente.

Essa é uma afirmação diferente. Eu não preciso dizer que compreendi a causa para reconhecer Sua presença. Não preciso chamar a dor de boa para dizer que encontrei Deus enquanto a atravessava. Não preciso agradecer pela doença para agradecer porque não precisei enfrentá-la sozinho. Isso talvez pareça uma pequena diferença de palavras. Para mim, tornou-se uma diferença enorme. Naquele quarto de hospital, eu pensava que estava lutando apenas pela recuperação do meu filho. Anos depois percebi que aquela experiência também havia revelado alguma coisa sobre mim: minha fragilidade, meu medo, minha necessidade de controlar as coisas e o tamanho do amor que eu sentia pela minha família. E também revelou minha dependência de Deus. As perguntas ainda não tinham nome. Elas viriam no tempo delas.